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Círculo Vermelho

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...

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23
Jun07

Nadir Afonso - Frases Soltas

Laura Afonso



O homem volta-se para a geometria como as plantas se voltam para o sol: é a mesma necessidade de clareza e todas as culturas foram iluminadas pela geometria, cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e de evidência absoluta.

Nadir Afonso

Este artista que eu conheço há mais de 20 anos é sem dúvida o mais importante pintor português contemporâneo e a sua obra é injustamente pouco conhecida no mundo.

 

Victor Vasarely, 23-11-1968

 

 

 

Os escritos de Nadir são profundos e tocam a essência das coisas. Eles deveriam impor-se pelas suas qualidades únicas e eu seria levado a crer que eles visarão a imortalidade.

Marcel Joray, 7-3-1988

 

 

16
Jun07

O Sentido da Arte

Laura Afonso

Nadir Afonso analisa os mecanismos da criação artística a partir de quatro princípios: sob a forma de condições de existência, as leis preexistem no cosmos; universo e obra de arte mantêm com estas leis relações de semelhança; é mediante a sensibilidade receptiva a esse meio legítimo que o criador concebe o objecto; daí que, para sentir as qualidades próprias do objecto criado, seja necessário contemplar as leis. Começando por uma explicação dos erros da percepção, o autor prossegue enumerando as contradições em que caem normalmente os estetas e historiadores do fenómeno artístico, acabando por mostrar que o Sentido da Arte não está na intencionalidade do sujeito, nem na extensão do objecto, mas nas condições reais da existência.

Para Nadir Afonso, estas condições não são idênticas às que o marxismo e o idealismo (Hegel e Husserl, em particular) propuseram, já que apenas se referem à precisão matemática de relações qualiquantitativas. Assim, não há nenhuma necessidade de entremear a arte com qualquer magia e mitologia, ou de acreditar que ela expressa estados da alma e paixões do corpo. O único mistério da arte é o da preexistência das leis. Mistério que o autor não procura resolver através de uma nova metafísica, dado que apenas lhe interessa perceber a relação entre o acto humano de criação e as causas primeiras. Para o efeito, Nadir Afonso dedica-se particularmente aos fenómenos da percepção das formas geométricas anteriores ao homem - sol e disco lunar, superfícies do céu e do mar limitadas pela linha do horizonte, troncos que se entrecruzam em quadrados, triângulos e rectângulos -, pois são estas as figuras básicas da Arquitectura, da Pintura e da Escultura, como das restantes artes. Para ele, toda a arte se limita a descobrir e representar estas formas simples, ou a aduzir-lhes as estruturas mais desenvolvidas que delas decorrem. Deixando de lado a criação "ex nihilo", Nadir Afonso insiste na ideia de que a originalidade de cada objecto evoca os outros, expressando simultaneamente a perfeição das figuras para o sujeito, dentro de uma totalidade que tende para a harmonia da bela forma que confere à arte a sua universalidade.

 

03
Jun07

Nadir Afonso in «Arquitectura e Vida»

Laura Afonso

Num mundo que vive, cada vez mais, de aparências e vaida­des, conversar com alguém como Nadir Afonso é um bálsa­mo para o espírito. Figura ímpar do pensamento e da arte portuguesa do século XX, aos 85 anos continua a prezar as mesmas qualidades - a sinceridade, a modéstia, a obsti­nação, a acutilância, a generosidade, a sabedoria - que o têm orientado ao longo de uma vida plena de experiências e sucessos.

Mais que um desfile de recordações, estas duas horas de conversa, no conforto da casa de Nadir, em Cascais, consti­tuíram uma viagem fascinante à memória de um homem que fala, com a paciência dos grandes mestres, sobre o seu per­curso profissional e artístico, as suas ideias e inquietações. Num registo pleno de expressividade, aceitou reviver alguns momentos fulcrais dessa história, fazendo sempre questão de representar todas as personagens e de convocar todas as vozes que dela fizeram parte ou que com ela se cruzaram. Nascido em Chaves em 1920, Nadir Afonso fez o curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Curiosamente, diz nunca se ter sentido arquitecto, quando só alguém notável nesta área poderia ter, como ele teve, o privilégio de trabalhar com os melhores do mundo - primei­ro em França, com Le Corbusier (1948-51), depois no Brasil, com Oscar Niemeyer (1952-54).

No entanto, nada desviou Nadir da sua total propensão para pintar nem da certeza de que as leis que regem a Pintura e a Arquitectura são diferentes. Além de materializada nos seus trabalhos plásticos, essa tomada de consciência tem sido, desde então, catalisadora de uma extensa obra teórica. Como artista, continua a procurar incessantemente as essências e o absoluto, e a encontrar na harmonia geomé­trica o reflexo da ordem primordial do Universo

Entrevista de Vladimiro Nunes  in «Arquitectura e Vida»


 

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